White rock by Michael Reichmann

branca pedra
por madalena pestana

"Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias." "La Chute" - Albert Camus

Portugal

27 setembro 2005

como um sinal de alerta

rabycallbox at merseycards

surge o telefone. vou ligar.

"- sim, mãe, sou eu...
pare de se espantar! estou viva. basta. os meus irmãos estão bem?

sim, têm de estar crescidos. claro que tenho saudades. sim...diga então? que aconteceu?

mãe, que doutor é esse de que fala? senhor? o tal senhor? qual senhor, mãe?

o Jaime? desde quando lhe esqueceu o nome?

pare com o choro e conte. não consigo ouvir nada.

sim... estou a escutá-la... "

"-... o doutor ou o Jaime, como tu lhe chamas, não existe já. "

"- que disparate é esse?!"

"- não o voltámos a ver. não voltou mais à vila. fechou-se em casa ao que dizem. trabalhava e bebia, nada mais. "

"- conte logo! "


michal-razniewski


"- uma manhã saiu de madrugada pelos caminhos da escarpa e não voltou. um pescador contou que o viu abraçar o vazio a gritar: Ondeia! e atirar-se ao mar.

o corpo? não... nem o corpo apareceu.

tens de voltar!

enlouqueceu o pobre. e por ti, filha!

filha? filha? não desligues!

desligou. "


"tens de voltar! "

não tenho não, mãe!

à morte não se volta. a morte não se teme, aguarda-se. abraça-se como ele a abraçou.

Ondeia não foi a sua vida, foi-lhe a morte.

Ondeia, não sou eu!

meu pobre querido Jaime, fica em paz!

encontrar-te-ei em qualquer mar, em qualquer rio.

beberei a tua loucura nessa água. amar-te-ei assim.



by Jody Fenton


mas voltar, não.

o comboio vai partir . não vou ficar aqui.

vou para norte. aonde me sinta mais próxima do que hoje sinto:

frio, apenas muito frio.

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FIM de "A Fuga de Ada"


tão solitária aquela árvore

Lonely Tree at geocachingmaine.org Gallery


quanto eu!

um dia vou voltar. eu sei, um dia. fazem-me falta as ondas azuis da minha terra. fazem-me falta as gentes absurdamente alegres e pobres. tudo faz. até ele. ele já me faz falta.

mas nada volta atrás no tempo, nada. envelheci por dentro. aprendi-me melhor. ainda me conheceria menos agora, o Jaime.

pois se nem deu pelos sinais. nem viu como me ficava na postura de flamingo, como ele próprio lhe chamara, horas a fio. não viu que estava triste. que não podia viver fechada naquele casulo de amor. apertado. secreto.


at scotthanson.com


não sou nada secreta. nasci e cresci solta. preciso disso. como é que ele não viu?!

quis-me só para si e assim nos perdemos um do outro. não tem retorno já. foi com as vagas o nosso amor, como o foram os castelos que deixámos na praia.


areia Alvin Lee

chega de pieguices. vou ficar nesta estação, comer alguma coisa e telefonar. estranho sempre que me perco em memórias. estranho sempre.

ligo e pergunto só: está tudo bem? desligo e acabou. a vida é onde eu estiver mas não para trás.

25 setembro 2005

naquela madrugada do meu medo

Couple by emil schildt

parecia mais perdido ainda que eu. escorri-lhe pelo corpo como água de chuva que caísse do meio do nevoeiro e ali nos amámos junto ao velho carro abandonado, no mato, na gruta, nas areias.

ele nem se deu conta de ser a primeira vez e eu tive pena. porquê?

sei lá porquê? nem sei porque voltei a pensar nisto hoje, se há quase 5 anos que fujo dele. dele? de mim? da vila?

viajo. trabalho em cafés aqui ali, para ganhar para a viagem e parto de novo, de comboio sempre.

ele deu-me carinho. coisa que eu nem sabia a que sabia. cercou-me de tudo flores amores, luxos até. e eu aceitei.



ikebana jean vallette

o luxo dava-lho eu todo a ela, excepto os doces. corria a dar-lho pelas veredas antigas. não seria tanto por ela que o fazia, ou era? não sei. e de que serve querer saber agora? nunca me amou. não sabe não podia.

mas tudo isso é passado. talvez telefone na próxima paragem para saber dos meus irmãos. quero que estudem. deixei todo o dinheiro, que tinha na conta que ele abriu, para garantir que estudassem. é preciso.

devem julgar-me louca os da vila. "com um homem que lhe dava o que queria e foi-se embora!...". oiço-os sem precisar lá estar. é sempre assim...

mas não podia mais. estava cercada. a minha alma morria a cada hora.
deu-me tudo, é certo, até um nome: Ondeia.
e era bonito o nome, mas eu morria a cada instante um bocadinho mais.

nunca me conheceu nem o tentou. tinha-me o corpo e isso lhe bastava. sem imaginar onde estaria eu.

lá chegamos a mais uma estação . ainda bem! já precisava de ar.