White rock by Michael Reichmann

branca pedra
por madalena pestana

"Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias." "La Chute" - Albert Camus

Portugal

24 setembro 2005

gosto de ver passar por nós


outros comboios, é engraçado sobretudo porque vão na direcção inversa à minha. o nosso está a abrandar. outra estação. é o que tem de bom ou mau não ter dinheiro para aviões. trocava? não creio. perdia a paisagem.

ainda bem que pára. estava a sentir demais o frio daquela madrugada. frio só até o ver, ali parado, olhando-me através do vidro embaciado do carro velho. queria tanto um cigarro! como agora.

mas agora posso pedi-lo, sem risco, ao meu observador da frente:

- tem cigarros?

- tenho sim.

- obrigada. esqueci de comprar.

foi simples. antes tivesse sido assim naquele dia. um cigarro e adeus que a vida é lá à frente.
não foi. que hei-de fazer? por hora viajo. para onde? para longe. dizem que me procura. disse-me ela ao falar de vergonha:

- o nosso nome, o teu nome estampado nos jornais, como o de uma fugitiva qualquer!

hipócrita! que nome?

paragem! ainda bem. vou andar um bocado enquanto fumo. tenho sede. queria tanto uma fonte! quem sabe encontro?...

nem quis saber o que me levara a deixá-lo, adormecido ainda. não queria saber nada. só queria que voltasse e eu não podia, não posso. mas porquê'?


open your eyes by Ewa Brozowska

ainda havia odor a suor de corpos que se amaram, pairando. tirei-lhe o cigarro da mão. era costume. nunca adormeço logo. se ele tivesse despertado...

daquela vez, deitada sobre as pedras

Bryant-leg-on-pebbles

aquecidas pelo sol, nem me dei conta do nevoeiro que se abateu sobre a praia. era já tarde. devo ter adormecido de paz e de cansaço.

foi o húmido cinzento da neblina que me fez erguer e pensar em atravessar a floresta para subir à vila.

era o pior caminho, mas o mais despojado de gente e o mais rápido. tinha-o de cor desde a adolescência. fui com o sem vontade do costume.

escureceu bruscamente e o frio acometeu-me, havia sombras, melhor fantasmagóricas árvores que pareciam gigantes cercavam-me. tremi.

pela primeira vez em vários anos, tive medo da floresta. a sorte foi o carro abandonado sabe-se lá por quem, tropecei nele.

car Will Agar

acocorei-me lá dentro a tentar não pensar. e ali passei a noite. estava frio. sobretudo antes de o sol nascer.
e nasceu nesse dia?

23 setembro 2005

o trem de ferro

rocky-mountain-train Canada

é isso... o barulho do trem do ferro:

café-com-pão

café-com-pão

café-com-pão...


vou ficar a ouvi-lo e tentar adormecer.

era mais fácil parar o comboio


com uma mão, que parar o que me vem à cabeça nesta hora.

quando assim é, aterro numa cadeira e fico ali, parada, como um flamingo numa perna só. não oiço ou vejo nada nem ninguém.

o mal foi esse, viram-me assim demasiado tempo e as perguntas choveram como pedras. que carinho é palavra e sentimento desconhecido lá em casa. gasta-se mais depressa que dinheiro em mão de jogador. e então, para o não gastarem, nem o usam.

mas acabariam por saber. tudo se sabe nas terras pequenas. tudo. eu própria teria necessidade de falar, mas não com ela. com ela nunca tive.

queria achar um culpado. não consigo. nem bem a razão foi o dinheiro como quis acreditar. que dinheiro afinal?

as coisas práticas vieram por acréscimo não foram nenhum trato, nenhum preço.

preço tenho só um e só eu o conheço. não foi essa a razão e não há culpados. mas para a vila há crime. para a minha mãe há vergonha. como é que eles fazem isto, digam lá?

é melhor distrair-me com o som do comboio nos carris. gosto do som. é dolente. cadencia quase de onda com um pouco, bem... muita imaginação.

o outro não resiste a uma gargalhada. deixa-o estar. também só me ri de raiva. muita raiva. se lhe falasse agora pagava ele pelos outros. isso não.

22 setembro 2005

volto para o comboio?

pois se não tenho carro a esta hora não me arrisco na estrada. não tenho medo. não me apetece dormir em qualquer berma à espera que passe um camião.

mais vale aturar o palerma que não gosta, ou gosta demais, de me ver rir sozinha.

sozinha. a palavra de que melhor sei o sentido.

mas sozinha na praia era bom. por muito tempo foi. até começar a surgir aquela sombra projectada na praia.


Okuno Hosomichi

não fazia ideia de quem fosse, ao chegar estava tudo deserto e entregava-me ao prazer natural do sal da água do vento.

só depois aparecia. dei em achar engraçado ter uma visita diária que eu nunca via e não sabia se me via sequer, mas que estava lá. na praia , por sobre a gruta.



eva-jean vallette

vivendo o meu paraíso, gostava-lhe da sombra, sem me virar sequer para o olhar.

se o dinheiro fosse outro ia comprar revistas de moda, para não pensar. é o que elas, as do hotel, fazem o dia todo, além de sauna massagem e piscina. parecem dar-se bem com isso. mas eu ainda prefiro o mar.

lá está o espinafrado a olhar de novo.

- olhe lá para fora, senhor, tem muito mais que ver!

devo ter ar de espelho eu. se o tolo pensava que lhe ia fazer de écran de cinema toda a viagem, já levou que contar! mas só a cara dele valeu o levantar da voz. valeu mesmo!

e se está lindo o dia fora do comboio! é um dia novo e o que é novo é bonito. quase sempre.

21 setembro 2005

devia ter comprado um carro em vez da casa


agora não teria de dormir no comboio ou num banco da estação. seguia em frente. apetece seguir. apetece muito. apetece aquele espaço vazio ali em frente. é um desafio. apetece-me!


Pacific2.firefox

quando me apetece alguma coisa é muito. apetece-me sempre muito o mar, as rochas a areia, a água batida salgada e a nudez! que bom caminhar nua à beira de água ou ficar nua ao sol !

lá estou eu a esquecer "filha, é pecado!" .

ainda bem que agora não está ninguém a ver-me rir. será que rir do pecado é ainda mais pecaminoso que a nudez?

meninas ainda, éramos um grupo a gostar ir nuas para o mar. as outras emigraram. sobrei eu. nem por isso deixei de frequentar os recantos de sempre. o mar já nos sabia e as gaivotas. pelo menos gosto de acreditar que sim. e que me sobra agora, além do que eu penso, do que eu sinto?

na altura não sabia o que sentia ainda. ia, naturalmente de fugida, depois de fazer milhentas camas no hotel.

passeava ou estirava-me na areia ou nas pedras. se estava frio, havia sempre a gruta.


emanuelle by Giancarlo Amici

ia nua, escondida. esquecia o mundo e a pobreza. lavava-me da roupa suja de sexo dos ricos.

sim, os ricos sujam roupa como os outros.

mas as ondas limpavam tudo, até a memória do que além disso, mesmo sem querer, via.

é bom o mar. apetece-me o mar!

será pecado, mãe?

20 setembro 2005

paragem

vou descer e esticar as pernas.

as árvores são tão diferentes agora ! até a luz. podia bem ficar-me por aqui. ou mudar de comboio.

descobri uma coisa tão alegre: posso agora tudo o que quiser!


web Weather

só havia o sonho para viver deste menina

sonho e às vezes pão. mas como lhes sabe bem esquecer agora, hipócritas!
olhem à volta e encontram em espelho aquilo que vivi, vivemos, depois que o pai morreu.

depois de começar a trabalhar no hotel , roubei um cobertor por não termos um só que não estivesse roto, e ela estar doente demais para a corrente de ar, que entrava pela porta podre já.

ninguém fez críticas. ela cobriu-se e eu voltei a fazer camas sem fim, cheia de medo de que descobrissem quem roubara.

mas não foi uma porta podre, a que ontem me fechou, empurrando-me como quem atira fora um verme intruso, em lar de asseio. foi numa porta bonita, com que sempre sonhei e consegui para ela. em casa já de pedra. iluminada.

red door Wilson

fui eu própria quem pintou a porta, daquela cor avermelhada. "agora sim podem fotografar", pensava eu enquanto dava a última demão.

como mostraram a casa nova, os vestidos, as loiças! e tudo sem perguntas. pois se toda a gente sabe que cai maná no deserto porque não cairiam casas de pedra numa vila pesqueira e miserável, digam?

lá está o outro a olhar! é alérgico às gargalhadas que dou. queria-me ver chorar? espere sentado. é coisa que já nem sei fazer.

sabia era fugir dessas visitas e ir para a minha gruta. a gruta dos amantes, e imaginar-me de pele branca, loira e linda, como as turistas que via no hotel.

aí era feliz. em sonhos, sempre.

by Chris Maher

e já é manhã mesmo

train_window

consegui dormir. parei de pensar. já ficou para trás a minha terra. a minha gente. minha? são meus os que me abandonam até me empurrar para um exílio forçado?

a terra sim. à terra voltarei. deixei a minha marca em cada canto. nas praias , nas árvores em forma de coração, quando menina, quando ainda sonhava de verdade, até nas pedras, como os antigos , deixei marcas.


Turtles were associated by the Maya with the rain god CHAC at galenfrysinge'

e nele, nele o que deixei?

que pergunta ridícula se conheço a resposta! nada. não deixei nada. nunca deixamos nada se somos só o que fui, um corpo por várias horas. mesmo que essas horas sejam muitas. muitas, demasiadas, várias horas!

lá estou eu, quase a conseguir ter peninha de mim.

aquele senhor aperaltado olhou-me espantado, por causa da gargalhada que dei. há-de olhar muita vez se for até ao fim da linha. só me faltava não rir se me apetece!

ainda por cima estou a rir de mim.

19 setembro 2005

raios. o hamburger está seco demais

da comida de casa sei que vou ter saudades. do paladar, do aroma dos nossos temperos. já do resto...
não me sinto culpada e queria conseguir. acho que me fazia companhia a culpa. assim lá vou ter de seguir sozinha. mas não é o costume?

que colorida é a pobreza ao olhar do turista!


Mercado Chachagüí by María Ximena Galeano

nunca os vi foi entrar e sentar-se à mesa de nenhuma das casas que mostram depois quando regressam à civilização. e até sei que se tentassem os simples abririam a porta e ofereciam até mais do que tinham. sei.

eu nunca gostei dessa pobreza e quis sair dela desde criança. pronto, aí está a razão tão procurada pelas cabeças dos inúteis que me acusam e apontam o dedo. foi para fugir disso sim!




há pobreza em todo o lado e é feia e triste sempre. não vale a pena enganarem-se. eu não quis enganar-me, quis sair e saí.

"eu bem te avisei que a ambição era um pecado. vez agora a vergonha porque nos fazes passar, filha, vês?"


hipócrita! como se ela não tivesse sabido sempre...

o melhor que faço é tentar dormir. tenho horas de carris pela frente e quero estar acordada para a paisagem de dia. é o bom dos combóios, poder ver.


dreamby Ewa Brzozowska

até que enfim, partida!

great train photo


só me faltava passar a noite naquela estaçãozinha imunda.

gosto de comboios. gostei sempre. ficava era a vê-los partir, nunca partia. sonhava. sonhava tanta coisa! agora viajo sem sonhos na bagagem. mas viajo. forçada, mas viajo.

eu, forçada! é de espanto sobretudo para mim que me conheço bem. mas é verdade e nunca vale a pena fugir à verdade. ela mais tarde ou mais cedo ataca e pelas costas.

estou cansada de esperar na estação. era, se não me engano, a única mulher no meio daquele monte de gente mal educada e mal lavada.

os ricos não são felizes, dizem. talvez não. mas só porque a felicidade não se vende. o resto é conversa de pobre a fazer de conta que é feliz.


train-station Doug Meredith

aquela estação! e o comboio com horas de atrazo. e eu sem sequer ter para onde voltar.

o melhor é procurar maneira de comprar qualquer coisa para comer ou ainda acabo cheia de pena de mim. era o que me faltava!

mas eles que me esperem. eu volto. e vou voltar bem por cima. tenho de fazer nem que seja isso nesta vida.

nem que viva apenas com o sonho de voltar.

pronto, arranjei um sonho. nada mau pra início de viagem sem destino, nada mau.

18 setembro 2005

pedindo a todos os que queiram

Prayer stones from Edu albuns


uma oração, um pensamento, por uma amiga doente.

obrigada.