White rock by Michael Reichmann

branca pedra
por madalena pestana

"Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias." "La Chute" - Albert Camus

Portugal

11 outubro 2005

uma teia é uma teia é uma teia!


por muito bonita que pareça, por muito que gotas de orvalho brilhem, uma teia será sempre pegajosa. colar-se-á sempre a quem a tocar
por mim saio neste apeadeiro do comboio, ainda com as mãos cheias dos fios da aranha.
deixo um olá carinhoso a quem na net sempre me respeitou e respeita os outros.
hei-de continuar a visitá-los com um nick qualquer. afinal sou virtual, que diferença faz com que nick eu os comente?
tudo de bom para os que o foram comigo! fiquem bem!

27 setembro 2005

como um sinal de alerta

rabycallbox at merseycards

surge o telefone. vou ligar.

"- sim, mãe, sou eu...
pare de se espantar! estou viva. basta. os meus irmãos estão bem?

sim, têm de estar crescidos. claro que tenho saudades. sim...diga então? que aconteceu?

mãe, que doutor é esse de que fala? senhor? o tal senhor? qual senhor, mãe?

o Jaime? desde quando lhe esqueceu o nome?

pare com o choro e conte. não consigo ouvir nada.

sim... estou a escutá-la... "

"-... o doutor ou o Jaime, como tu lhe chamas, não existe já. "

"- que disparate é esse?!"

"- não o voltámos a ver. não voltou mais à vila. fechou-se em casa ao que dizem. trabalhava e bebia, nada mais. "

"- conte logo! "


michal-razniewski


"- uma manhã saiu de madrugada pelos caminhos da escarpa e não voltou. um pescador contou que o viu abraçar o vazio a gritar: Ondeia! e atirar-se ao mar.

o corpo? não... nem o corpo apareceu.

tens de voltar!

enlouqueceu o pobre. e por ti, filha!

filha? filha? não desligues!

desligou. "


"tens de voltar! "

não tenho não, mãe!

à morte não se volta. a morte não se teme, aguarda-se. abraça-se como ele a abraçou.

Ondeia não foi a sua vida, foi-lhe a morte.

Ondeia, não sou eu!

meu pobre querido Jaime, fica em paz!

encontrar-te-ei em qualquer mar, em qualquer rio.

beberei a tua loucura nessa água. amar-te-ei assim.



by Jody Fenton


mas voltar, não.

o comboio vai partir . não vou ficar aqui.

vou para norte. aonde me sinta mais próxima do que hoje sinto:

frio, apenas muito frio.

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FIM de "A Fuga de Ada"


tão solitária aquela árvore

Lonely Tree at geocachingmaine.org Gallery


quanto eu!

um dia vou voltar. eu sei, um dia. fazem-me falta as ondas azuis da minha terra. fazem-me falta as gentes absurdamente alegres e pobres. tudo faz. até ele. ele já me faz falta.

mas nada volta atrás no tempo, nada. envelheci por dentro. aprendi-me melhor. ainda me conheceria menos agora, o Jaime.

pois se nem deu pelos sinais. nem viu como me ficava na postura de flamingo, como ele próprio lhe chamara, horas a fio. não viu que estava triste. que não podia viver fechada naquele casulo de amor. apertado. secreto.


at scotthanson.com


não sou nada secreta. nasci e cresci solta. preciso disso. como é que ele não viu?!

quis-me só para si e assim nos perdemos um do outro. não tem retorno já. foi com as vagas o nosso amor, como o foram os castelos que deixámos na praia.


areia Alvin Lee

chega de pieguices. vou ficar nesta estação, comer alguma coisa e telefonar. estranho sempre que me perco em memórias. estranho sempre.

ligo e pergunto só: está tudo bem? desligo e acabou. a vida é onde eu estiver mas não para trás.

25 setembro 2005

naquela madrugada do meu medo

Couple by emil schildt

parecia mais perdido ainda que eu. escorri-lhe pelo corpo como água de chuva que caísse do meio do nevoeiro e ali nos amámos junto ao velho carro abandonado, no mato, na gruta, nas areias.

ele nem se deu conta de ser a primeira vez e eu tive pena. porquê?

sei lá porquê? nem sei porque voltei a pensar nisto hoje, se há quase 5 anos que fujo dele. dele? de mim? da vila?

viajo. trabalho em cafés aqui ali, para ganhar para a viagem e parto de novo, de comboio sempre.

ele deu-me carinho. coisa que eu nem sabia a que sabia. cercou-me de tudo flores amores, luxos até. e eu aceitei.



ikebana jean vallette

o luxo dava-lho eu todo a ela, excepto os doces. corria a dar-lho pelas veredas antigas. não seria tanto por ela que o fazia, ou era? não sei. e de que serve querer saber agora? nunca me amou. não sabe não podia.

mas tudo isso é passado. talvez telefone na próxima paragem para saber dos meus irmãos. quero que estudem. deixei todo o dinheiro, que tinha na conta que ele abriu, para garantir que estudassem. é preciso.

devem julgar-me louca os da vila. "com um homem que lhe dava o que queria e foi-se embora!...". oiço-os sem precisar lá estar. é sempre assim...

mas não podia mais. estava cercada. a minha alma morria a cada hora.
deu-me tudo, é certo, até um nome: Ondeia.
e era bonito o nome, mas eu morria a cada instante um bocadinho mais.

nunca me conheceu nem o tentou. tinha-me o corpo e isso lhe bastava. sem imaginar onde estaria eu.

lá chegamos a mais uma estação . ainda bem! já precisava de ar.

24 setembro 2005

gosto de ver passar por nós


outros comboios, é engraçado sobretudo porque vão na direcção inversa à minha. o nosso está a abrandar. outra estação. é o que tem de bom ou mau não ter dinheiro para aviões. trocava? não creio. perdia a paisagem.

ainda bem que pára. estava a sentir demais o frio daquela madrugada. frio só até o ver, ali parado, olhando-me através do vidro embaciado do carro velho. queria tanto um cigarro! como agora.

mas agora posso pedi-lo, sem risco, ao meu observador da frente:

- tem cigarros?

- tenho sim.

- obrigada. esqueci de comprar.

foi simples. antes tivesse sido assim naquele dia. um cigarro e adeus que a vida é lá à frente.
não foi. que hei-de fazer? por hora viajo. para onde? para longe. dizem que me procura. disse-me ela ao falar de vergonha:

- o nosso nome, o teu nome estampado nos jornais, como o de uma fugitiva qualquer!

hipócrita! que nome?

paragem! ainda bem. vou andar um bocado enquanto fumo. tenho sede. queria tanto uma fonte! quem sabe encontro?...

nem quis saber o que me levara a deixá-lo, adormecido ainda. não queria saber nada. só queria que voltasse e eu não podia, não posso. mas porquê'?


open your eyes by Ewa Brozowska

ainda havia odor a suor de corpos que se amaram, pairando. tirei-lhe o cigarro da mão. era costume. nunca adormeço logo. se ele tivesse despertado...

daquela vez, deitada sobre as pedras

Bryant-leg-on-pebbles

aquecidas pelo sol, nem me dei conta do nevoeiro que se abateu sobre a praia. era já tarde. devo ter adormecido de paz e de cansaço.

foi o húmido cinzento da neblina que me fez erguer e pensar em atravessar a floresta para subir à vila.

era o pior caminho, mas o mais despojado de gente e o mais rápido. tinha-o de cor desde a adolescência. fui com o sem vontade do costume.

escureceu bruscamente e o frio acometeu-me, havia sombras, melhor fantasmagóricas árvores que pareciam gigantes cercavam-me. tremi.

pela primeira vez em vários anos, tive medo da floresta. a sorte foi o carro abandonado sabe-se lá por quem, tropecei nele.

car Will Agar

acocorei-me lá dentro a tentar não pensar. e ali passei a noite. estava frio. sobretudo antes de o sol nascer.
e nasceu nesse dia?

23 setembro 2005

o trem de ferro

rocky-mountain-train Canada

é isso... o barulho do trem do ferro:

café-com-pão

café-com-pão

café-com-pão...


vou ficar a ouvi-lo e tentar adormecer.

era mais fácil parar o comboio


com uma mão, que parar o que me vem à cabeça nesta hora.

quando assim é, aterro numa cadeira e fico ali, parada, como um flamingo numa perna só. não oiço ou vejo nada nem ninguém.

o mal foi esse, viram-me assim demasiado tempo e as perguntas choveram como pedras. que carinho é palavra e sentimento desconhecido lá em casa. gasta-se mais depressa que dinheiro em mão de jogador. e então, para o não gastarem, nem o usam.

mas acabariam por saber. tudo se sabe nas terras pequenas. tudo. eu própria teria necessidade de falar, mas não com ela. com ela nunca tive.

queria achar um culpado. não consigo. nem bem a razão foi o dinheiro como quis acreditar. que dinheiro afinal?

as coisas práticas vieram por acréscimo não foram nenhum trato, nenhum preço.

preço tenho só um e só eu o conheço. não foi essa a razão e não há culpados. mas para a vila há crime. para a minha mãe há vergonha. como é que eles fazem isto, digam lá?

é melhor distrair-me com o som do comboio nos carris. gosto do som. é dolente. cadencia quase de onda com um pouco, bem... muita imaginação.

o outro não resiste a uma gargalhada. deixa-o estar. também só me ri de raiva. muita raiva. se lhe falasse agora pagava ele pelos outros. isso não.

22 setembro 2005

volto para o comboio?

pois se não tenho carro a esta hora não me arrisco na estrada. não tenho medo. não me apetece dormir em qualquer berma à espera que passe um camião.

mais vale aturar o palerma que não gosta, ou gosta demais, de me ver rir sozinha.

sozinha. a palavra de que melhor sei o sentido.

mas sozinha na praia era bom. por muito tempo foi. até começar a surgir aquela sombra projectada na praia.


Okuno Hosomichi

não fazia ideia de quem fosse, ao chegar estava tudo deserto e entregava-me ao prazer natural do sal da água do vento.

só depois aparecia. dei em achar engraçado ter uma visita diária que eu nunca via e não sabia se me via sequer, mas que estava lá. na praia , por sobre a gruta.



eva-jean vallette

vivendo o meu paraíso, gostava-lhe da sombra, sem me virar sequer para o olhar.

se o dinheiro fosse outro ia comprar revistas de moda, para não pensar. é o que elas, as do hotel, fazem o dia todo, além de sauna massagem e piscina. parecem dar-se bem com isso. mas eu ainda prefiro o mar.

lá está o espinafrado a olhar de novo.

- olhe lá para fora, senhor, tem muito mais que ver!

devo ter ar de espelho eu. se o tolo pensava que lhe ia fazer de écran de cinema toda a viagem, já levou que contar! mas só a cara dele valeu o levantar da voz. valeu mesmo!

e se está lindo o dia fora do comboio! é um dia novo e o que é novo é bonito. quase sempre.

21 setembro 2005

devia ter comprado um carro em vez da casa


agora não teria de dormir no comboio ou num banco da estação. seguia em frente. apetece seguir. apetece muito. apetece aquele espaço vazio ali em frente. é um desafio. apetece-me!


Pacific2.firefox

quando me apetece alguma coisa é muito. apetece-me sempre muito o mar, as rochas a areia, a água batida salgada e a nudez! que bom caminhar nua à beira de água ou ficar nua ao sol !

lá estou eu a esquecer "filha, é pecado!" .

ainda bem que agora não está ninguém a ver-me rir. será que rir do pecado é ainda mais pecaminoso que a nudez?

meninas ainda, éramos um grupo a gostar ir nuas para o mar. as outras emigraram. sobrei eu. nem por isso deixei de frequentar os recantos de sempre. o mar já nos sabia e as gaivotas. pelo menos gosto de acreditar que sim. e que me sobra agora, além do que eu penso, do que eu sinto?

na altura não sabia o que sentia ainda. ia, naturalmente de fugida, depois de fazer milhentas camas no hotel.

passeava ou estirava-me na areia ou nas pedras. se estava frio, havia sempre a gruta.


emanuelle by Giancarlo Amici

ia nua, escondida. esquecia o mundo e a pobreza. lavava-me da roupa suja de sexo dos ricos.

sim, os ricos sujam roupa como os outros.

mas as ondas limpavam tudo, até a memória do que além disso, mesmo sem querer, via.

é bom o mar. apetece-me o mar!

será pecado, mãe?

20 setembro 2005

paragem

vou descer e esticar as pernas.

as árvores são tão diferentes agora ! até a luz. podia bem ficar-me por aqui. ou mudar de comboio.

descobri uma coisa tão alegre: posso agora tudo o que quiser!


web Weather

só havia o sonho para viver deste menina

sonho e às vezes pão. mas como lhes sabe bem esquecer agora, hipócritas!
olhem à volta e encontram em espelho aquilo que vivi, vivemos, depois que o pai morreu.

depois de começar a trabalhar no hotel , roubei um cobertor por não termos um só que não estivesse roto, e ela estar doente demais para a corrente de ar, que entrava pela porta podre já.

ninguém fez críticas. ela cobriu-se e eu voltei a fazer camas sem fim, cheia de medo de que descobrissem quem roubara.

mas não foi uma porta podre, a que ontem me fechou, empurrando-me como quem atira fora um verme intruso, em lar de asseio. foi numa porta bonita, com que sempre sonhei e consegui para ela. em casa já de pedra. iluminada.

red door Wilson

fui eu própria quem pintou a porta, daquela cor avermelhada. "agora sim podem fotografar", pensava eu enquanto dava a última demão.

como mostraram a casa nova, os vestidos, as loiças! e tudo sem perguntas. pois se toda a gente sabe que cai maná no deserto porque não cairiam casas de pedra numa vila pesqueira e miserável, digam?

lá está o outro a olhar! é alérgico às gargalhadas que dou. queria-me ver chorar? espere sentado. é coisa que já nem sei fazer.

sabia era fugir dessas visitas e ir para a minha gruta. a gruta dos amantes, e imaginar-me de pele branca, loira e linda, como as turistas que via no hotel.

aí era feliz. em sonhos, sempre.

by Chris Maher

e já é manhã mesmo

train_window

consegui dormir. parei de pensar. já ficou para trás a minha terra. a minha gente. minha? são meus os que me abandonam até me empurrar para um exílio forçado?

a terra sim. à terra voltarei. deixei a minha marca em cada canto. nas praias , nas árvores em forma de coração, quando menina, quando ainda sonhava de verdade, até nas pedras, como os antigos , deixei marcas.


Turtles were associated by the Maya with the rain god CHAC at galenfrysinge'

e nele, nele o que deixei?

que pergunta ridícula se conheço a resposta! nada. não deixei nada. nunca deixamos nada se somos só o que fui, um corpo por várias horas. mesmo que essas horas sejam muitas. muitas, demasiadas, várias horas!

lá estou eu, quase a conseguir ter peninha de mim.

aquele senhor aperaltado olhou-me espantado, por causa da gargalhada que dei. há-de olhar muita vez se for até ao fim da linha. só me faltava não rir se me apetece!

ainda por cima estou a rir de mim.

19 setembro 2005

raios. o hamburger está seco demais

da comida de casa sei que vou ter saudades. do paladar, do aroma dos nossos temperos. já do resto...
não me sinto culpada e queria conseguir. acho que me fazia companhia a culpa. assim lá vou ter de seguir sozinha. mas não é o costume?

que colorida é a pobreza ao olhar do turista!


Mercado Chachagüí by María Ximena Galeano

nunca os vi foi entrar e sentar-se à mesa de nenhuma das casas que mostram depois quando regressam à civilização. e até sei que se tentassem os simples abririam a porta e ofereciam até mais do que tinham. sei.

eu nunca gostei dessa pobreza e quis sair dela desde criança. pronto, aí está a razão tão procurada pelas cabeças dos inúteis que me acusam e apontam o dedo. foi para fugir disso sim!




há pobreza em todo o lado e é feia e triste sempre. não vale a pena enganarem-se. eu não quis enganar-me, quis sair e saí.

"eu bem te avisei que a ambição era um pecado. vez agora a vergonha porque nos fazes passar, filha, vês?"


hipócrita! como se ela não tivesse sabido sempre...

o melhor que faço é tentar dormir. tenho horas de carris pela frente e quero estar acordada para a paisagem de dia. é o bom dos combóios, poder ver.


dreamby Ewa Brzozowska

até que enfim, partida!

great train photo


só me faltava passar a noite naquela estaçãozinha imunda.

gosto de comboios. gostei sempre. ficava era a vê-los partir, nunca partia. sonhava. sonhava tanta coisa! agora viajo sem sonhos na bagagem. mas viajo. forçada, mas viajo.

eu, forçada! é de espanto sobretudo para mim que me conheço bem. mas é verdade e nunca vale a pena fugir à verdade. ela mais tarde ou mais cedo ataca e pelas costas.

estou cansada de esperar na estação. era, se não me engano, a única mulher no meio daquele monte de gente mal educada e mal lavada.

os ricos não são felizes, dizem. talvez não. mas só porque a felicidade não se vende. o resto é conversa de pobre a fazer de conta que é feliz.


train-station Doug Meredith

aquela estação! e o comboio com horas de atrazo. e eu sem sequer ter para onde voltar.

o melhor é procurar maneira de comprar qualquer coisa para comer ou ainda acabo cheia de pena de mim. era o que me faltava!

mas eles que me esperem. eu volto. e vou voltar bem por cima. tenho de fazer nem que seja isso nesta vida.

nem que viva apenas com o sonho de voltar.

pronto, arranjei um sonho. nada mau pra início de viagem sem destino, nada mau.

18 setembro 2005

pedindo a todos os que queiram

Prayer stones from Edu albuns


uma oração, um pensamento, por uma amiga doente.

obrigada.

16 setembro 2005

bom fim de semana.

from iloveoregon.com

15 setembro 2005

ergueu as flores de Ada


imaginou a agilidade dos dedos da mulher ao tocá-las, o carinho.

eram para ti. são para ti. da côr exacta do sol que hoje não veio.

como fui crédulo ao pensar que lembrando-te com toda esta saudade, recordando-te inteira, tu virias!

dá uns passos na direcção do mar. fica-lhe para trás o último rasto de romeiro, o cantil já vazio.

vê as ondas. vêm quebrar-lhe aos pés. parece querer contá-las com exactidão.

porque esperavas sempre a sétima onda antes de deitares flores ao mar?

Ondeia, diz-me!

nem que seja só isso. não cheguei a saber. talvez até o tenhas dito e eu não tenha ouvido, mais preso a ti do que ao que tu fazias. mais preso a querer-te que de facto a ver-te.

meu amor, a ser assim quanto perdi de ti ?!

porque não me avisaste? não gritaste? para me fazer sair deste egoísmo de querer fechar-te na mão, como uma jóia, em vez de te deixar ondear no mesmo vento que te trouxe a mim.

à certa sétima onda, Jaime atirou os girassóis às vagas.


Dream Lover Med


voltou-se bruscamente de costas para o mar. tropeçou numa pedra. numa branca pedra que até vira, ou não vira? ao chegar.

baixou os olhos na direcção da pedra, fixo. atento.


- tens cigarros?

- não.

Ondeia!

dá-me a tua mão, meu amor . a mão! apenas .

by Brian Morrison


fim de "Ondeia"

por onde passara na descida do penhasco

from Photo Art

vira Ada projectada em tudo o que o cercava.

Ada ou Ondeia? qual delas eu amei? qual delas foi real? qual delas se deixou amar por mim? qual me fugiu?

para mim era Ondeia, a das noites insones, do corpo que se ajusta como uma veste leve ao corpo nu. para mim era Ondeia e assim a nomeei como ela fazia às aves, aos caminhos, às plantas mais pequenas onde descansasse por breves segundos o olhar profundo.

que foi que não vi, que não amei como devia nela?

é tarde agora. é sempre muito tarde se já é depois.

não esquecerei nunca a tua dança, os teus rituais de maga pelos bosques, Ada, pois se foi o que primeiro de ti e em ti amei, me apaixonou.

by emil schildt

a tua cumplicidade com a vida. com o que nasce e vive sob o mesmo sol.

bebe do cantil um golo de água como peregrino que atinge, já sem força, o lugar certo da peregrinação.

desceu o dia e não se ergueu o sol. precisava de sol para este gesto. nem o sol se apiedou de mim.

14 setembro 2005

ombros caídos como quem leva um fardo

descia tropeçando qual um bêbado.

trouxera no bolso um pão bem embrulhado para matar a fome inevitável, um cantil de água ao ombro, o diário e flores.
estranhos adornos os que lhe sobravam na descida. mas ninguém o veria além dos pequenos animais do bosque ou as aves poisadas nas escarpas preparando ninhos.

murmúrios incoerentes lhe saíam agora. os gritos, poucos, que soltara, pareciam ter esgotado toda a compostura e energia com que, madrugada ainda, para ali se encaminhara.


se vês, aonde estás, dizem que estás... acode! vê-me a mim.


chegou à praia com o cansaço de quem atinge a meta final.

tudo tinha sido programado. cada passo. como quem se prepara para uma grande, interminável viagem.


13 setembro 2005

escreveu longa, aceleradamente.

a mão rápida, uma ruga funda na testa. mais nenhuma expressão.

esvaziada a memória. fechou o diário e ao fazê-lo viu cair um cartão, uma foto que apanhou e demorou a olhar.


serius portrait by emil schildt

tão linda meu amor. que sorte tive. que fiz eu para merecer a perfeição?

foi esse o meu pecado? querer-te minha? podes crer voltaria a pecar vezes sem conta. mas se não posso ter-te para quê olhar um rosto de papel que amarelece já. estás bem mais viva em mim. estarás sempre.

silhoue t- paa-klippe

enquanto olhava ainda, com ternura, o rosto de Ada, acendeu o último cigarro que restara. fumou-o devagar. depois fechou a foto no diário.

como num ritual subiu ao ponto mais alto dos rochedos e atirou à água tudo o que escrevera.

de uma vez se juntam realidade e lenda. se é como dizem e és já onda ou rocha aqui vai tudo o que contigo vivi senti sonhei. guarda-o contigo meu amor, até ao reencontro.

nem se ouviu a queda na água de tão grande a distãncia.

o homem começou a descer. cansado. lentamente.

5ª entrada - como passaste tu de corpo quente

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by emil shildt

à gelada distântia aonde não te encontro.

recuso tudo aquilo que me dizem de ti. recuso a tua morte a tua fuga. seria recusar-nos e não posso, não quero, não sei fazê-lo.

vesti luto por dentro mas esperei-te. espero-te ainda no momento que antecede o fim da nossa história.
como despertarias de tanta carne viva e partirias para a morte sem que eu gelasse antes de ti?

como fugirias de mim sem que ouvisse o teu rumor de ave que se afasta? sem que te visse as penas caídas após tão cruel voo?

não. não creio em nada do que dizem. não viraste estátua nem rocha como dizem as mulheres da rua quando passo. percorri todos os recantos e escarpas.

A woman of mystery -Tony Roberts

os caminhos, os nossos e os teus. que os tinhas mas eu também os sabia ao ver o rasto leve das sapatilhas de corda que nunca abandonavas.

não. que crueldade a deles, meu amor...

azulavas todos os caminhos

Blue rock Lars Andersson

à tua passagem tudo se iluminava e tinha voz. vencias o nevoeiro. um dia como este estaria limpo já e cheio de côr, não fora tu não estares.

como fomos felizes!

ninguém o terá sido ou será mais. nunca pensei perder-te. queria amar procriar reproduzir contigo a beleza e a paz que carregavas.

falámos até da velhice, lembras? e de como nunca abandonaríamos a beira mar fosse qual fosse a idade.

imaginávamo-nos velhinhos, de mão dada recolhendo conchas pedras, com o carinho que punhas em tudo o que fazias dentro da natureza.

ondes estás?

responde que estou farto das lendas que se formaram já a envolver-te.

não vês que isso me faz perder-te dia a dia mais e eu não quero perder nada de ti?

que aconteceu naquela noite? conta!

até no esconso das rochas nos amámos. que poderia ter-te acontecido depois de te ter cercado com o meu corpo, até cairmos os dois abandonados ao sono inevitável. diz-me. diz!

Ada subia com o sol vencia o nevoeiro

trespassava o tempo, era presente. tanto o homem fugira daquele reencontro!

cinco anos volvidos após a ausência da mulher é que voltava.

todo esse tempo passou-o num silêncio estático.
para vencedor nascera e assim continuou. trabalhou até à exaustão. ninguém o encontrava fora da empresa que geria com competência redobrada.
só o homem do bar perto de casa onde descia para uma bebida menos solitária, o via.

- novidades de Ondeia, Dr.?

perguntava de início o velho parceiro das horas de abandono.

- nada.

Ondeia, a nomeara ele. pelo doce ondear dos cabelos, do corpo maleável. Ondeia lhe chamava a vila a meia voz, de início. depois alto num vozear crescente após o súbito desaparecimento.

- Ondeia, que é de Ondeia? tão triste anda o Doutor, pobre homem, mete dó! e eram tão felizes!


couple by emil schildt


Ondeia! chama a terra a relva as aves as nuvens as rochas e o mar. Ondeia!

que é das tuas ondas de berço Ada? que é de ti?

já se esbatem em sépia as tuas cores nunca o teu ondear de serpente marinha, de vaga às vezes, mas de onda suave sempre.

como se uniam se afastavam e reencontravam os nossos sôfregos corpos nús, tal como ondas. éramos mar Ondeia. em constante movimento de vai vem e rodopio e chão de areia e rocha e retorno. e depois calmia da maré.

não sei amar outro corpo além do teu, não sei!

sufocava ao ar livre no silêncio insistente da manhã.

12 setembro 2005

que medo de tocar-te!


medo de que desaparecesses como tinhas surgido. medo de te perder por te tocar. medo de descobrir que não eras real.

antes não fosses!

não, perdoa meu amor. minto só porque te sofro a ausência. nada de melhor tive na vida, nada!

não resisti e estendi-te a mão aberta. ao receber a tua, dei comigo a falar como se fossemos amantes desde sempre:

- nunca me recuses a mão quando te der a minha, por favor!

ficaste subitamente séria. desceste do carro resvalando ao longo do meu corpo e respondeste mansamente:

- nunca.

depois? depois ensinaste-me todos os caminhos, não só o do hotel.
que foi que juntos não percorremos, diz-me!


Sea-Rocks-Gerald Robinson


tanta coisa poderiam contar da nossa loucura de anjos soltos das regras dos deuses. foram eles. sim foram os deuses gulosos de ti que te levaram, não vejo outra razão, não vejo outro lugar onde possas estar longe de mim.

foge-lhes, Ada, foge aos teus desuses outra vez e volta. foge!

o silêncio daquela antemanhã que a névoa prolongava pareceu ficar mais denso. nem o som da folhagem ele ouvia. nem o piar das aves que aprendera a escutar, nem os saltos de esquilo, nem as ondas. não, nesse momento, nem as ondas nas rochas conseguia ele ouvir.


teria eu acreditado se não visse? terei visto ou sonhado

o bailar à beira de cair de uma gota, que parecia chuva gelada aguardando a primavera para se libertar, nos olhos comovidos de Ada?

tanta luz tanta cor a inundar-lhe o olhar! a vitória do sol a vencer o nevoeiro! tudo, tudo nela era o milagre da vida.

from milan blstak


e eu tivera a honra de ser convidado a assistir. a participar desse momento.

não fosse aquele olhar, aquela voz, aquele rir de pássaro à solta, aquela lágrima guardada com pudor de jóia. não fosse Ada, eu estaria aqui?

Ada, meu amor de sempre a sempre, que fizeste tu de ti, de mim?

o grito ecoou. e depois o silêncio voltou como resposta. o homem dobrou-se sobre si e soluçou.

senta-se nas ervas húmidas da noite

de nevoeiro denso. não parece importar-se. o diário atirado para o chão. o olhar no longe.

- precisava de ter tomado mais café. vícios são vícios há que tê-los em dia.

ri de si, do seu próprio humor.

- claro. vim preparado para a fome e esqueci o café. também já teria gelado a esta hora e café para mim, só fumegante.

o tempo que passei silencioso escutando nada até a ver pedir-me que subisse. eu? o bem comportadinho subir para o topo de um automóvel velho para o lado de uma mulher a cada segundo mais admiravelmente misteriosa e... desejada?

eu?!

subi logo.

- olhe com atenção, ali, naquele galho, duas crias a pedir comida. a mãe anda por perto...não fale. olhe só.


como os descobriu ela lá tão alto no meio ainda do nevoeiro cerrado, não sei ainda hoje. claro que perguntei. mas ela estava toda entregue à contemplação das pequeninas aves e não me respondeu.

4ª entrada - eu

CastleRockTree-Dan Mitchell.


falei de mim. na realidade entornei a minha vida em cima dela. queria que me soubesse todo. contei-lhe das rotinas de como e onde vivia, onde passava as férias. as saídas de madrugada do hotel para levar os olhos a pastar, o como me perdera e a vira chorar. sim caí em falar disso e arrependi-me logo.

ela não reagiu. estava atenta. ouvia ou parecia ouvir-me e isso me bastava: ela ouvia-me. subitamente deu um salto belo, de corça, para cima do tejadilho do carro e voltou ao silêncio. não estranhei. como se fosse natuiral na minha vida patética e urbana, conversar com alguém que estivesse em cima de um carro a escutar. como se o certo fosse isso. nela era.

- não fale agora. escute só.

silenciei com gosto e apurei o ouvido. nada se ouvia na floresta de novo mas, escutei. não tinha ela pedido que escutasse?

11 setembro 2005

espera que o sol rompa o cinza interminável

fog-sun-tree by Gordon Richardson


já não escreve. limita-se a olhar. cada espaço tem uma história breve mas instante nele.

ouve bramir o mar de encontro às escarpas. lá em baixo. sabe que irá vê-lo. sabe que refará todo o percurso que fizeram os dois.

é a primeira vez que o faz sozinho. decidira mesmo não voltar.
decisões de horas de raiva mágoa frustação.

e hoje, passados cinco anos, sente que nunca deixou de estar ali.

viveu ali cada segundo do após ela.

para quê fugir mais, pergunta-se? nunca lhe conseguirá fugir. nunca.

acende outro cigarro.

- que se lixe! eu gosto de fumar.