uma teia é uma teia é uma teia!

por muito bonita que pareça, por muito que gotas de orvalho brilhem, uma teia será sempre pegajosa. colar-se-á sempre a quem a tocar
White rock by Michael Reichmann

"Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias." "La Chute" - Albert Camus


michal-razniewski
"- uma manhã saiu de madrugada pelos caminhos da escarpa e não voltou. um pescador contou que o viu abraçar o vazio a gritar: Ondeia! e atirar-se ao mar.
o corpo? não... nem o corpo apareceu.
tens de voltar!
enlouqueceu o pobre. e por ti, filha!
filha? filha? não desligues!
desligou. "
"tens de voltar! "
não tenho não, mãe!
à morte não se volta. a morte não se teme, aguarda-se. abraça-se como ele a abraçou.
Ondeia não foi a sua vida, foi-lhe a morte.
Ondeia, não sou eu!
meu pobre querido Jaime, fica em paz!
encontrar-te-ei em qualquer mar, em qualquer rio.
beberei a tua loucura nessa água. amar-te-ei assim.

by Jody Fenton
mas voltar, não.
o comboio vai partir . não vou ficar aqui.
vou para norte. aonde me sinta mais próxima do que hoje sinto:
frio, apenas muito frio.
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FIM de "A Fuga de Ada"
Lonely Tree at geocachingmaine.org Galleryum dia vou voltar. eu sei, um dia. fazem-me falta as ondas azuis da minha terra. fazem-me falta as gentes absurdamente alegres e pobres. tudo faz. até ele. ele já me faz falta.
mas nada volta atrás no tempo, nada. envelheci por dentro. aprendi-me melhor. ainda me conheceria menos agora, o Jaime.
pois se nem deu pelos sinais. nem viu como me ficava na postura de flamingo, como ele próprio lhe chamara, horas a fio. não viu que estava triste. que não podia viver fechada naquele casulo de amor. apertado. secreto.

at scotthanson.com
não sou nada secreta. nasci e cresci solta. preciso disso. como é que ele não viu?!
quis-me só para si e assim nos perdemos um do outro. não tem retorno já. foi com as vagas o nosso amor, como o foram os castelos que deixámos na praia.
areia Alvin Lee chega de pieguices. vou ficar nesta estação, comer alguma coisa e telefonar. estranho sempre que me perco em memórias. estranho sempre.
ligo e pergunto só: está tudo bem? desligo e acabou. a vida é onde eu estiver mas não para trás.
Couple by emil schildtparecia mais perdido ainda que eu. escorri-lhe pelo corpo como água de chuva que caísse do meio do nevoeiro e ali nos amámos junto ao velho carro abandonado, no mato, na gruta, nas areias.
ele nem se deu conta de ser a primeira vez e eu tive pena. porquê?
sei lá porquê? nem sei porque voltei a pensar nisto hoje, se há quase 5 anos que fujo dele. dele? de mim? da vila?
viajo. trabalho em cafés aqui ali, para ganhar para a viagem e parto de novo, de comboio sempre.
ele deu-me carinho. coisa que eu nem sabia a que sabia. cercou-me de tudo flores amores, luxos até. e eu aceitei.
ikebana jean vallette
outros comboios, é engraçado sobretudo porque vão na direcção inversa à minha. o nosso está a abrandar. outra estação. é o que tem de bom ou mau não ter dinheiro para aviões. trocava? não creio. perdia a paisagem.
ainda bem que pára. estava a sentir demais o frio daquela madrugada. frio só até o ver, ali parado, olhando-me através do vidro embaciado do carro velho. queria tanto um cigarro! como agora.
mas agora posso pedi-lo, sem risco, ao meu observador da frente:
- tem cigarros?
- tenho sim.
- obrigada. esqueci de comprar.
foi simples. antes tivesse sido assim naquele dia. um cigarro e adeus que a vida é lá à frente.
não foi. que hei-de fazer? por hora viajo. para onde? para longe. dizem que me procura. disse-me ela ao falar de vergonha:
- o nosso nome, o teu nome estampado nos jornais, como o de uma fugitiva qualquer!
hipócrita! que nome?
paragem! ainda bem. vou andar um bocado enquanto fumo. tenho sede. queria tanto uma fonte! quem sabe encontro?...
nem quis saber o que me levara a deixá-lo, adormecido ainda. não queria saber nada. só queria que voltasse e eu não podia, não posso. mas porquê'?
open your eyes by Ewa Brozowska
ainda havia odor a suor de corpos que se amaram, pairando. tirei-lhe o cigarro da mão. era costume. nunca adormeço logo. se ele tivesse despertado...
car Will Agar 
com uma mão, que parar o que me vem à cabeça nesta hora.
quando assim é, aterro numa cadeira e fico ali, parada, como um flamingo numa perna só. não oiço ou vejo nada nem ninguém.
o mal foi esse, viram-me assim demasiado tempo e as perguntas choveram como pedras. que carinho é palavra e sentimento desconhecido lá em casa. gasta-se mais depressa que dinheiro em mão de jogador. e então, para o não gastarem, nem o usam.
mas acabariam por saber. tudo se sabe nas terras pequenas. tudo. eu própria teria necessidade de falar, mas não com ela. com ela nunca tive.
queria achar um culpado. não consigo. nem bem a razão foi o dinheiro como quis acreditar. que dinheiro afinal?
as coisas práticas vieram por acréscimo não foram nenhum trato, nenhum preço.
preço tenho só um e só eu o conheço. não foi essa a razão e não há culpados. mas para a vila há crime. para a minha mãe há vergonha. como é que eles fazem isto, digam lá?
é melhor distrair-me com o som do comboio nos carris. gosto do som. é dolente. cadencia quase de onda com um pouco, bem... muita imaginação.
o outro não resiste a uma gargalhada. deixa-o estar. também só me ri de raiva. muita raiva. se lhe falasse agora pagava ele pelos outros. isso não.

só depois aparecia. dei em achar engraçado ter uma visita diária que eu nunca via e não sabia se me via sequer, mas que estava lá. na praia , por sobre a gruta.
eva-jean vallette vivendo o meu paraíso, gostava-lhe da sombra, sem me virar sequer para o olhar.
se o dinheiro fosse outro ia comprar revistas de moda, para não pensar. é o que elas, as do hotel, fazem o dia todo, além de sauna massagem e piscina. parecem dar-se bem com isso. mas eu ainda prefiro o mar.
lá está o espinafrado a olhar de novo.
- olhe lá para fora, senhor, tem muito mais que ver!
devo ter ar de espelho eu. se o tolo pensava que lhe ia fazer de écran de cinema toda a viagem, já levou que contar! mas só a cara dele valeu o levantar da voz. valeu mesmo!
e se está lindo o dia fora do comboio! é um dia novo e o que é novo é bonito. quase sempre.

agora não teria de dormir no comboio ou num banco da estação. seguia em frente. apetece seguir. apetece muito. apetece aquele espaço vazio ali em frente. é um desafio. apetece-me!
Pacific2.firefox quando me apetece alguma coisa é muito. apetece-me sempre muito o mar, as rochas a areia, a água batida salgada e a nudez! que bom caminhar nua à beira de água ou ficar nua ao sol !
lá estou eu a esquecer "filha, é pecado!" .
ainda bem que agora não está ninguém a ver-me rir. será que rir do pecado é ainda mais pecaminoso que a nudez?
meninas ainda, éramos um grupo a gostar ir nuas para o mar. as outras emigraram. sobrei eu. nem por isso deixei de frequentar os recantos de sempre. o mar já nos sabia e as gaivotas. pelo menos gosto de acreditar que sim. e que me sobra agora, além do que eu penso, do que eu sinto?
na altura não sabia o que sentia ainda. ia, naturalmente de fugida, depois de fazer milhentas camas no hotel.
passeava ou estirava-me na areia ou nas pedras. se estava frio, havia sempre a gruta.

emanuelle by Giancarlo Amici
ia nua, escondida. esquecia o mundo e a pobreza. lavava-me da roupa suja de sexo dos ricos.
sim, os ricos sujam roupa como os outros.
mas as ondas limpavam tudo, até a memória do que além disso, mesmo sem querer, via.
é bom o mar. apetece-me o mar!
será pecado, mãe?
ninguém fez críticas. ela cobriu-se e eu voltei a fazer camas sem fim, cheia de medo de que descobrissem quem roubara.
mas não foi uma porta podre, a que ontem me fechou, empurrando-me como quem atira fora um verme intruso, em lar de asseio. foi numa porta bonita, com que sempre sonhei e consegui para ela. em casa já de pedra. iluminada.


Turtles were associated by the Maya with the rain god CHAC at galenfrysinge'
e nele, nele o que deixei?
que pergunta ridícula se conheço a resposta! nada. não deixei nada. nunca deixamos nada se somos só o que fui, um corpo por várias horas. mesmo que essas horas sejam muitas. muitas, demasiadas, várias horas!
lá estou eu, quase a conseguir ter peninha de mim.
aquele senhor aperaltado olhou-me espantado, por causa da gargalhada que dei. há-de olhar muita vez se for até ao fim da linha. só me faltava não rir se me apetece!
ainda por cima estou a rir de mim.

há pobreza em todo o lado e é feia e triste sempre. não vale a pena enganarem-se. eu não quis enganar-me, quis sair e saí.
"eu bem te avisei que a ambição era um pecado. vez agora a vergonha porque nos fazes passar, filha, vês?"
hipócrita! como se ela não tivesse sabido sempre...
o melhor que faço é tentar dormir. tenho horas de carris pela frente e quero estar acordada para a paisagem de dia. é o bom dos combóios, poder ver.
dreamby Ewa Brzozowska
great train photo
gosto de comboios. gostei sempre. ficava era a vê-los partir, nunca partia. sonhava. sonhava tanta coisa! agora viajo sem sonhos na bagagem. mas viajo. forçada, mas viajo. eu, forçada! é de espanto sobretudo para mim que me conheço bem. mas é verdade e nunca vale a pena fugir à verdade. ela mais tarde ou mais cedo ataca e pelas costas. estou cansada de esperar na estação. era, se não me engano, a única mulher no meio daquele monte de gente mal educada e mal lavada. os ricos não são felizes, dizem. talvez não. mas só porque a felicidade não se vende. o resto é conversa de pobre a fazer de conta que é feliz. |
aquela estação! e o comboio com horas de atrazo. e eu sem sequer ter para onde voltar.
o melhor é procurar maneira de comprar qualquer coisa para comer ou ainda acabo cheia de pena de mim. era o que me faltava!
mas eles que me esperem. eu volto. e vou voltar bem por cima. tenho de fazer nem que seja isso nesta vida.
nem que viva apenas com o sonho de voltar.
pronto, arranjei um sonho. nada mau pra início de viagem sem destino, nada mau.
eram para ti. são para ti. da côr exacta do sol que hoje não veio.
como fui crédulo ao pensar que lembrando-te com toda esta saudade, recordando-te inteira, tu virias!
dá uns passos na direcção do mar. fica-lhe para trás o último rasto de romeiro, o cantil já vazio.
vê as ondas. vêm quebrar-lhe aos pés. parece querer contá-las com exactidão.
porque esperavas sempre a sétima onda antes de deitares flores ao mar?
Ondeia, diz-me!
nem que seja só isso. não cheguei a saber. talvez até o tenhas dito e eu não tenha ouvido, mais preso a ti do que ao que tu fazias. mais preso a querer-te que de facto a ver-te.
meu amor, a ser assim quanto perdi de ti ?!
porque não me avisaste? não gritaste? para me fazer sair deste egoísmo de querer fechar-te na mão, como uma jóia, em vez de te deixar ondear no mesmo vento que te trouxe a mim.
à certa sétima onda, Jaime atirou os girassóis às vagas.
Dream Lover Med voltou-se bruscamente de costas para o mar. tropeçou numa pedra. numa branca pedra que até vira, ou não vira? ao chegar.
baixou os olhos na direcção da pedra, fixo. atento.
- tens cigarros?
- não.
Ondeia!
dá-me a tua mão, meu amor . a mão! apenas .
by Brian Morrison
fim de "Ondeia"
from Photo Art a tua cumplicidade com a vida. com o que nasce e vive sob o mesmo sol.
bebe do cantil um golo de água como peregrino que atinge, já sem força, o lugar certo da peregrinação.
desceu o dia e não se ergueu o sol. precisava de sol para este gesto. nem o sol se apiedou de mim.

chegou à praia com o cansaço de quem atinge a meta final.
tudo tinha sido programado. cada passo. como quem se prepara para uma grande, interminável viagem.
esvaziada a memória. fechou o diário e ao fazê-lo viu cair um cartão, uma foto que apanhou e demorou a olhar.
serius portrait by emil schildt
tão linda meu amor. que sorte tive. que fiz eu para merecer a perfeição?
foi esse o meu pecado? querer-te minha? podes crer voltaria a pecar vezes sem conta. mas se não posso ter-te para quê olhar um rosto de papel que amarelece já. estás bem mais viva em mim. estarás sempre.
silhoue t- paa-klippe enquanto olhava ainda, com ternura, o rosto de Ada, acendeu o último cigarro que restara. fumou-o devagar. depois fechou a foto no diário.
como num ritual subiu ao ponto mais alto dos rochedos e atirou à água tudo o que escrevera.
de uma vez se juntam realidade e lenda. se é como dizem e és já onda ou rocha aqui vai tudo o que contigo vivi senti sonhei. guarda-o contigo meu amor, até ao reencontro.
nem se ouviu a queda na água de tão grande a distãncia.
o homem começou a descer. cansado. lentamente.
à tua passagem tudo se iluminava e tinha voz. vencias o nevoeiro. um dia como este estaria limpo já e cheio de côr, não fora tu não estares.
como fomos felizes!
ninguém o terá sido ou será mais. nunca pensei perder-te. queria amar procriar reproduzir contigo a beleza e a paz que carregavas.
falámos até da velhice, lembras? e de como nunca abandonaríamos a beira mar fosse qual fosse a idade.
imaginávamo-nos velhinhos, de mão dada recolhendo conchas pedras, com o carinho que punhas em tudo o que fazias dentro da natureza.
ondes estás?
responde que estou farto das lendas que se formaram já a envolver-te.
não vês que isso me faz perder-te dia a dia mais e eu não quero perder nada de ti?
que aconteceu naquela noite? conta!
até no esconso das rochas nos amámos. que poderia ter-te acontecido depois de te ter cercado com o meu corpo, até cairmos os dois abandonados ao sono inevitável. diz-me. diz!
que é das tuas ondas de berço Ada? que é de ti?
já se esbatem em sépia as tuas cores nunca o teu ondear de serpente marinha, de vaga às vezes, mas de onda suave sempre.
como se uniam se afastavam e reencontravam os nossos sôfregos corpos nús, tal como ondas. éramos mar Ondeia. em constante movimento de vai vem e rodopio e chão de areia e rocha e retorno. e depois calmia da maré.
não sei amar outro corpo além do teu, não sei!
sufocava ao ar livre no silêncio insistente da manhã.
medo de que desaparecesses como tinhas surgido. medo de te perder por te tocar. medo de descobrir que não eras real.
antes não fosses!
não, perdoa meu amor. minto só porque te sofro a ausência. nada de melhor tive na vida, nada!
não resisti e estendi-te a mão aberta. ao receber a tua, dei comigo a falar como se fossemos amantes desde sempre:
- nunca me recuses a mão quando te der a minha, por favor!
ficaste subitamente séria. desceste do carro resvalando ao longo do meu corpo e respondeste mansamente:
- nunca.
depois? depois ensinaste-me todos os caminhos, não só o do hotel.
que foi que juntos não percorremos, diz-me!
Sea-Rocks-Gerald Robinson
tanta coisa poderiam contar da nossa loucura de anjos soltos das regras dos deuses. foram eles. sim foram os deuses gulosos de ti que te levaram, não vejo outra razão, não vejo outro lugar onde possas estar longe de mim.
foge-lhes, Ada, foge aos teus desuses outra vez e volta. foge!
o silêncio daquela antemanhã que a névoa prolongava pareceu ficar mais denso. nem o som da folhagem ele ouvia. nem o piar das aves que aprendera a escutar, nem os saltos de esquilo, nem as ondas. não, nesse momento, nem as ondas nas rochas conseguia ele ouvir.

from milan blstak

como os descobriu ela lá tão alto no meio ainda do nevoeiro cerrado, não sei ainda hoje. claro que perguntei. mas ela estava toda entregue à contemplação das pequeninas aves e não me respondeu.
CastleRockTree-Dan Mitchell.
ela não reagiu. estava atenta. ouvia ou parecia ouvir-me e isso me bastava: ela ouvia-me. subitamente deu um salto belo, de corça, para cima do tejadilho do carro e voltou ao silêncio. não estranhei. como se fosse natuiral na minha vida patética e urbana, conversar com alguém que estivesse em cima de um carro a escutar. como se o certo fosse isso. nela era. - não fale agora. escute só. silenciei com gosto e apurei o ouvido. nada se ouvia na floresta de novo mas, escutei. não tinha ela pedido que escutasse? |
